Teu nascimento não foi programado. Mas apareceste. Foram 39 semanas de incômodos, de enjôos matinais até o terceiro mês, de solavancos em minha barriga, de noites dormindo sentada no último mês, de um peso e inchaço absurdos. Meses de expectativa. Meses de só te ver através de um aparelho, mas, incrivelmente, saber que tu estavas ali, dentro de mim. Saber que eu, enquanto mulher, tinha o poder de gerar uma criança perfeita e saudável.
No último ultrassom, detectamos que tu, preguiçosa, não te encaixaste como deverias. E essa mãezinha aqui, marinheira de primeira viagem, que desejava tanto um parto normal, não poderia fazê-lo. Tu estavas com a bunda no lugar da cabeça, e vice-versa. Nosso obstetra, Dr. Jean, ria de nossas inquietações e medos.
Parto. Na sexta-feira, fomos ao médico. Marcamos a cesárea para a próxima segunda. Não tenhas dúvida de que a noite de domingo foi a mais longa, para mim. Horas ininterruptas, que antecediam o teu tão esperado nascimento. Minha filha, sinceramente, eu já não aguentava mais te ter dentro de mim. Tu me chutavas e me apertavas de tal maneira, que era extremamente desconfortável. Doía muito. Mas a hora chegou.
Descemos para a sala de parto. Havia uma equipe médica gigantesca. Eles me sedaram, e me anestesiaram. Anestesia peridural, aquela que se dá nas vértebras da coluna. Enquanto fazia o devido efeito, os médicos conversavam sobre o caso da mega -sena, aquele que o cara ganhou o prêmio e escondeu da própria esposa. Riam. Eu via tudo girando. Um misto de drogas, inquietação e ultra-nervosismo. Teu pai entrou na sala, e ficou segurando minha mão. Esticaram um pano azul na minha frente. Dr. Jean beliscava minha barriga, e eu já não sentia mais nada.
Enfim, a hora H. Cortaram minha barriga. Eles falavam coisas que me soavam incompreensíveis. Eu, anciosíssima para te ver, fiquei puta da cara com aquele pano. Mas, enfim, o médico te puxou. Pela bunda. E nasceste CAGANDO, minha filha. Ríamos. Eles te chamaram de porquinha. Fizeste cocô antes de cortarem teu cordão umbilical, ou seja, dentro do meu útero aberto. Depois concluímos que, numa atitude anarquista, nasceste cagando para o mundo!
Ah, te ver, pela primeira vez… eu, drogadíssima. Tu, uma cara de joelho, ensebada. E já te levaram para os testes, os quais foste muito bem. Chamaram teu pai, que estava ao meu lado o tempo todo, para te ver. Ele respondeu: “a minha filha, vou ter todo o tempo do mundo para ver… quem precisa de mim, agora, é minha mulher”. Fofo, não?
Fomos para o quarto, depois de uma longa espera na recuperação. Correu tudo muito bem, estávamos ótimas. Ao chegar no quarto, já menos sedada, pude te ver com tranquilidade e atenção. Inclusive porque já grudaste nos meus peitos, cujo leite vazava, forte e vigoroso, esperando por tua fome. Tu eras esfomeada. E te ver, ali, sugando no meu peito, é uma sensação que eu não posso descrever. Depois perdeu a graça, já que arrebentaste os bicos dos meus seios, e eu te dava o peito chorando, de dor. Algumas vezes, bebias leite temperado de sangue.
Mas é impressionante. Hoje tens 2 anos e 7 meses. Passamos por muitas coisas, juntas. Coisas boas e ruins. Mas tenho que confessar: te ver essa menina linda, cheia de vida, saudável, correndo e cantando e sorrindo por todos os cantos da casa… é maravilhoso. Te sentar no meu colo e mexer no teu cabelinho, nos teus cachos dourados/acobreados que escorrem pelas tuas costas, sentir teu cheirinho de Johnsons, ouvir tua gargalhada que invade o quarto, a sala, a cozinha; te buscar na creche e ser recebida, todos os dias, por um sozinho lindo… é fantástico. Tu, definitivamente, és minha mola propulsora. É o que me dá razão para prosseguir e para querer mais.
As tuas roupinhas, os teus calçados, os teus biquínis, as tuas perninhas grossas e tua bundinha linda quando andas só de calcinha pela casa, os teus comentários que me fazem rir, a forma como falas o plural tão perfeitamente, os elogios que as professoras te dão, os teus desenhos rabiscados e as tuas bolinhas, tão tortinhas e tão lindas, feitas com ambas as mãos… ah, minha filha. És perfeita, aos meus olhos. Linda linda linda de morrer. Brava, encrenqueira, geniosa, sim sim sim. Muito. Mesmo assim, uma criança de luz, uma criança apaixonante.
Só posso querer, e fazer acontecer, o melhor para ti. Mesmo com meus defeitos, e com meus acertos também. Quero que o mundo todo, caiba na palma da tua mão. Quero que voes por lugares que eu nunca consegui alcançar, se quiseres voar tão alto. Se não quiseres, vou te respeitar. Façamos uma parceria eterna. Porque, de mim, só podes esperar o sentimento mais puro, forte e verdadeiro que eu já senti: o amor de mãe. Inexplicável e inenarrável. Transbordante e reluzente, só isso.
Não sabemos do futuro, ou como vai ser. Vamos ter brigas, daquelas feias, sim. Mas desejo que tenhamos sabedoria e coração para superarmos todas as diferenças. No que depender de mim, todo esforço será válido. Simplesmente, porque te quero mais que tudo neste mundo. Para ti, minha filha, desejo infinitamente o melhor.
Meu maior tesouro, meu maior amor, minha linda criança.
Te amo, tanto!
Tua mãe.

6 Comentários
Novembro 22, 2007 às 3:26 pm
Eu ainda acho que a Isabela cresceu assim porque EU alimentei ela com ração de gato. Mesmo contra a vontade de Dona Zenir.
Portanto, sou participante ativo do crescimento do CAPETÃO !
Novembro 23, 2007 às 12:58 am
Josi,
Quando me deparo com estes textos tão teus em que expressas teus sentimentos duma forma tão forte e ao mesmo tempo tão simples percebo que tive muito sorte de teres entrado na minha vida e de ter uma filha contigo. Meu muito obrigado. Beijo, te Amo.
Novembro 23, 2007 às 5:02 am
Que texto mais lindo. Estou emocionada, de verdade. Acho que minha mãe deve ter escrito um desses pra mim quando eu era pequena também, mas hoje não sei onde está. Um dia o acho. Mas enfim, novamente, parabéns pelo texto.
Junho 6, 2008 às 5:12 pm
muito lindo,este texto!!
Outubro 3, 2008 às 2:11 pm
Ai que texto lindo.
Posso falar uma coisa aqui…?! CHOREI AO LER AO TEXTO.
Muita emoção, sonho em sentir tudo isso, meu maior sonho é ser mãe.
Enquanto não sou, “babo” os meus primos trigêmeos!
Uma grande abraço!
Agosto 31, 2009 às 10:55 am
Lindo este testo me emosionei muito lembrando do nascimento de minha filha q faz niver hoje.